domingo, 21 de agosto de 2016

ROTINA

Ele enfim foi se deitar após perder as contas dos cigarros fumados e das doses de vodka consumidas. O sol já dava as caras pela fresta da janela fechada e o seu cachorro estava mergulhado em um sono tranquilo. Era apenas mais um fim de semana comum na sua vida após ela ter ido embora alegando que o amor acabara.
Na segunda-feira feira acordou cedo, fez um café, banhou-se e foi para mais um dia de trabalho para encarar pessoas que não lhe traziam nada além de conversas vazias e cumprimentos cheios de hipocrisia. Era um serviço chato e sem perspectivas, que tinha como agravante as cobranças sem fim de um gerente magro e arrogante. Era necessário que ele se segurasse, afinal era aquele dinheiro que garantia um teto, comida, maços de Marlboro e as garrafas de vodka barata, sem esquecer da ração do velho labrador que o acompanhava há alguns anos.
Ele vivia de lembranças, de quando o velho cão ainda podia correr e fazer festa para recebê-lo, dos tempos em que a filha o via como exemplo ao invés de um bêbado fracassado, coisa que ela fazia questão de deixar claro. Nos raros encontros com a garota, que já planejava a festa de debutante, ela apenas o lembrava dos valores com os quais ele teria que arcar dali a uns meses.
Ele já tinha acostumado-se com uma cama vazia e insossa que apenas servia para acolher seu corpo desajeitado após cada noite de doses e fumaça. Houve um tempo que aquela cama foi palco de noites de amor e testemunha de palavras cheias de cumplicidade, hoje ele mal troca os lençóis.
As semanas foram passando e nada de novo acontecia na vida dele. Até que um dia chegou do serviço e antes de tirar os sapatos deparou-se com a cena do velho labrador estirado, não estava dormindo, apenas tinha se entregado a idade e as debilidades da saúde que assolavam-no há alguns meses. O homem recolheu o corpo do cão com certa dificuldade e o levou para o fundo do quintal, chorava baixo enquanto cavava aquela que seria a última morada do velho companheiro que criou desde de filhote.
Ele pensou em não ir trabalhar na manhã seguinte. Sentia-se mal com a ausência do cão, porém decidiu enfrentar as agruras do escritório cheio de gente que valiam menos de um por cento do que o labrador que o deixara na noite anterior. Trabalhou, foi cobrado, conversou sem vontade e foi pra casa.
Após mais algumas semanas, notou-se que ele não aparecia no escritório há vários dias. A mulher que ele ainda amava notou que a pensão não foi depositada. A filha não foi chamada para acompanhá-lo para acertar a primeira parcela da festa de quinze anos. O dono do bar não vendeu mais nenhum maço de cigarro para aquele tipo meio atrapalhado de óculos e barba por fazer.
Passaram os dias e o cheiro se espalhava com intensidade. Os vizinhos sentiam um odor forte e incômodo. Vinha da casa 60. Tinham que arrombar a porta. Chamaram a polícia e assim foi feito. Ele estava sem camisa, descalço e com uma calça do seu time de coração. No braço via se tatuado um coração humano com o nome da ex-mulher e da filha dentro. Na mesa um cinzeiro com várias bitucas e um copo sujo de vodka. Ao chão um caderno com velhos poemas escritos a mão e uma esferográfica sem tampa. Não havia sinal de violência, veneno ou uso de drogas. Comenta-se que nunca explicaram o que houve e muitos dizem que ele morreu foi de saudade.

terça-feira, 21 de junho de 2016

UMA BELA VIAGEM



 Imagine-se com a vida num marasmo, sem nada de bom acontecendo, uma rotina estressante, problemas acumulados, mágoas guardadas, dias maçantes e feridas ainda em fase de cicatrização. De repente você resolve fugir um pouco disso tudo e sair para dar uma volta e encontra um papel caído ao chão. Esse papel é um bilhete para embarcar em um trem, uma viagem, porém nada consta no destino, está escrito apenas a data e o horário da partida: hoje e agora.
A dúvida começa a comandar os seus pensamentos, afinal por que embarcar ou não nessa jornada desconhecida? Só que o marasmo é tanto que você se dá conta que nada tem a perder e entra naquele vagão que parece especialmente preparado para te receber.
A máquina apita e a composição começa a se mover lenta e calmamente quando um alívio instantâneo toma conta dos seus pensamentos onde a única coisa sensata a fazer é admirar a paisagem. Você abre a cortina devagar, até com um pouco de receio e se depara com uma bela vista que jamais poderia perceber se não tivesse embarcado.  Um lago de uma cor brilhante e viva lhe transmite uma paz que há tempos não experimentava e risadas agradáveis começam a ecoar suavemente nos seus ouvidos.
A viagem vai seguindo e a paisagem continua sendo uma atração tão relaxante que a última coisa que você pensa é tirar os olhos da janela, porque as imagens transmitidas se comparam as melhores cenas que já ocorreram até então na sua vida, os sons soam como uma canção perfeita, com todos os instrumentos em perfeita harmonia e uma voz suave cantando frases bonitas que parecem ter sido compostas exclusivamente para você.
O trem segue sem percalços, numa velocidade delicada que não produz um único solavanco e a cada momento a paisagem vai se moldando a tudo que você imaginava quando pensava em fazer uma viagem. Os lugares são como telas pintadas com um esmero absoluto onde cada detalhe se encaixa com o único propósito de encantar a íris dos seus olhos e a cada novo olhar surge uma surpresa que acaba por tirar os sorrisos que há tempos estavam escondidos. Você percebe que já está há muito tempo viajando, embora o seu cérebro teime que só se passaram alguns minutos. Alguns cenários parecem ser familiares, como se já tivessem sido visitados por você em alguma parte da sua existência, mas você não se importa, porque embora já conhecidos, te transmitem uma sensação tão boa que poderia ser repetida durante anos. É como um romance de almas, que não precisa de toque para te deixar feliz, um encontro de ideias e sonhos similares, que andam lado a lado sem um invadir o espaço do outro.
E essa viagem pode continuar o tempo que você quiser, a paisagem te promete longos anos á disposição para que você possa admirá-la e sempre que possível ela se transformará para que você possa se surpreender com novas formas e cores. Uma oportunidade de viajar assim chega sem aviso, mas não pense que é por acaso, sempre há uma razão para que você seja contemplado com tamanho acalento, pode ser para um recomeço ou uma chance de sentir de novo algo que estava esquecido dentro de um coração duro. Quem sabe até mesmo possa ser a paisagem que esteja precisando de alguém para admirá-la com um olhar mais cuidadoso. Independente qual seja o motivo, sempre vale a pena embarcar mesmo sem saber pra onde, porque uma viagem desse tipo jamais irá levá-lo a um destino não desejado.  

domingo, 13 de setembro de 2015

A ÂNCORA SE FOI

Eis que depois de mais de três anos estou aqui juntando palavras novamente, não que eu tenha a aspiração que alguém vá ler essas linhas que publico aqui, porém deu vontade de retomar esse hábito que outrora foi tão reconfortante e que talvez agora seja novamente um escape das coisas que têm rolado.
Nesse tempo que fiquei ausente vivi coisas que jamais pude imaginar, instantes que talvez não pudesse materializar nem mesmo na idealização de uma vida perfeita e foram realmente muito importantes para que eu pudesse colocar na cabeça que talvez existisse a possibilidade de uma vida menos rude. É claro que alguns dedos continuaram em riste e alguns preconceitos são imutáveis na cabeça de alguns, gente idiota não muda do dia pra noite, só que isso não mais me atingia e eu não precisava de noites inteiras de ilusões etílicas para que pudesse encarar os fatos.
Uma âncora, uma presença, uma única certeza que alguém está lá te esperando, uma vida que se interessa pela tua, que se preocupa com tua saúde, que está disposta a te motivar a melhorar, uma companhia agradável mesmo quando merdas gigantes rolavam, inúmeros gostos compartilhados e um ser responsável por noites incríveis de corpos em sintonia trocando carinhos que fazem esquecer o mundo.
Rolou, rolou tudo isso e mais um pouco. Sabe a sensação de acordar cheio de problemas e lembrar aquela presença, bater no peito e pensa – Foda-se, ela ta lá e isso é que importa – pois é...
Só que as coisas mudam, as pessoas mudam e isso jamais pode ser considerado um defeito. A minha âncora se soltou. Novamente eu navego por mares agitados, águas turvas e tempestades intermináveis. Ficou um misto fracasso, decepção e gratidão. Fracasso por não ter sido capaz de fazer o suficiente pra continuar na calmaria, decepção por não ter tido a chance de reforçar as amarras que me mantinham em curso e gratidão pelo fato dessa âncora ter me segurado durante tanto tempo impedindo que o naufrágio tivesse ocorrido antes.
Continuo tentando navegar, escolhendo as rotas menos perigosas, só que talvez essa viagem seja muito onerosa para um único tripulante, sem âncora, sem bote salva-vidas, com um leme que nem sempre obedece aos comandos e sempre na iminência de dar com o casco numa rocha para afundar devagarzinho, com os pulmões tomados de água bloqueando a respiração e terminando com mais uma jornada. Talvez apareça outra âncora, uma bússola ou simplesmente algum outro tripulante, mas todos sabem que quando as coisas ficam complicadas demais a responsabilidade é toda do capitão.



domingo, 11 de março de 2012

RELIGIÃO PARA QUEM PRECISA

 Enfim chegamos ao momento inevitável, que eu mesmo tentei adiar por algum tempo, mas agora chegou a hora de falar de religião. Religião que está presente nas vidas humanas desde que o mundo é mundo. As religiões sempre se proliferaram entre os mais diversos povos adorando os mais diversos mitos.
 Há mais de 2.000 anos atrás rolou a história de Jesus Cristo dando origem a religião que é a maioria no nosso país independente de ser católica, evangélica, luterana, etc. O cristianismo recebeu várias ramificações ao longo dos séculos por diferenças de opiniões e interpretações dos seus envolvidos, porém na maioria das vezes essas seitas derivadas do cristianismo foram criadas por puro interesse dos seus líderes. Na Idade Média a Igreja Católica tinha um grande poder sobre as nações e apenas com os seus sermões conseguia manipular a grande maioria das pessoas, até porque quem fosse contrário as suas afirmações poderia ser queimado em praça pública. Depois vieram Luteranos, Anglicanos, Pentecostais, Mórmons, Testemunhas de Jeová e mais um monte de denominações dos mais diversos cantos do mundo, porém todas elas tendo como base o Cristianismo e seu manual de conduta: a Bíblia Sagrada.
 Querendo ou não, todo cristão tem que se basear na Bíblia para agradar a Deus e conseguir a tão esperada salvação. Lógico que cada denominação a interpreta de forma diferente ou até mesmo reescreve algumas partes de forma conveniente para sua igreja, porém os princípios básicos são os mesmos. Só que muitas pessoas cometem o cômodo engano de tentar separar as coisas de forma que mais lhe convém, só que se esquecem que tudo está intimamente ligado. Por exemplo, por mais que você seja uma pessoa sem preconceitos, ao batizar seu filho na Igreja Católica estará endossando o ódio dessa instituição nutre contra o casamento homossexual. Você pode ter muita fé, ser uma pessoa de bem, ajudar os necessitados, mas se achar que duas mulheres podem se amar e viverem felizes, inferno pra você.
 O principal objetivo desse texto é fazer as pessoas pensarem, refletirem se realmente a religião que seguem está de acordo com seus valores morais, se conhecem mesmo a palavra pregada pelos sacerdotes que ouvem todas as semanas e que se elas não fossem condicionadas desde a infância a acreditar num ser superior se escolheriam de verdade acreditar nisso. Não quero que ninguém descarte sua fé, apenas que se indague se ela realmente é tão inabalável assim.
 A vida é dura na maioria das vezes e eu entendo que grande parte das pessoas tem que se apegar a algo para agüentar o tranco. Entendo também que a religião foi necessária há tempos atrás para manter as pessoas na linha.  Hoje em dia temos maior acesso a informação, a leitura e sinceramente não vejo mais tanta necessidade de um antigo livro regrar a vida das pessoas sobre o que é certo ou errado. A máscara de várias denominações cristãs está ruindo e cada vez mais a dúvida surgirá na cabeça dos fiéis. Existem ainda milhões de pessoas que dependem da sua crença para levarem a vida, porque precisam acreditar em algo maior do que elas. Eu sinceramente não preciso, gosto de fazer o que é certo pelos meus valores morais, não porque serei castigado senão o fizer ou desfrutarei de vida eterna se seguir tudo a risca. Prefiro eu mesmo decidir o que é bom ou ruim para minha vida, me culpando pelos erros e me exaltando pelos acertos. Amo aqueles que me fazem bem, não por causa de um mandamento e sim porque sinto necessidade de retribuir o que me fazem de bom. Para se ter uma vida honesta, digna e ultrapassar os obstáculos, não são necessárias humilhações a ninguém, são necessárias vontade e autoconfiança. Quero deixar claro que cada um sabe o que lhe faz bem e se você tem uma fé que lhe torna uma pessoa melhor, vá em frente, mas lembre-se que conhecimento não é pecado e que ter a vida plena com liberdade de pensamento pode ser melhor que qualquer paraíso.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O ÚLTIMO ANO?

 Então entramos em 2012, que segundo algumas interpretações do calendário maia será o derradeiro período da existência humana. Existem pessoas que acreditam, outras que dizem que não acreditam, porém estão com medo e muitas, que como eu, acham que isso é mais uma tolice como foram todos os anúncios apocalípticos anteriores.
 Ainda assim eu quero fazer um exercício de reflexão: e se realmente fosse o último ano da existência de vida na Terra? O que cada um de nós pensaria? Choraríamos as nossas mazelas? Aproveitaríamos os últimos dias? Tentaríamos reencontrar alguém? Ou simplesmente esperaríamos o anunciado fim?
 É difícil para os seres humanos pensar que um dia simplesmente a vida acabará. Talvez esse seja um dos últimos tabus que perduram nos tempos de hoje. A verdade é que ninguém quer morrer e só imaginar essa possibilidade causa calafrios.
 Mas analisando mais profundamente, eu me pergunto será que a maioria as pessoas teria que esperar o fim pra deixar de viver? E chego a triste conclusão que não. Infelizmente a maioria das pessoas não vive há muito tempo e grande parte talvez nem tenha vivido. Eu falo dessas pessoas que desafortunadamente povoam a maioria dos lugares que freqüentamos, espontaneamente ou por obrigação, isso não importa.
 Agora esse texto se transforma em um recado para aqueles acomodados que com certeza acham que suas mediocridades são muito importantes: vocês não viveram. Se você passou a sua existência preso as amarras impostas desde sua infância sem ao menos um fio de dúvida. Se você deu mais valor ao ter do que ao ser. Se você comprou aquela roupa de marca só porque todo mundo estava usando. Se você escolheu sua profissão unicamente pela remuneração. Se você temeu um possível assalto apenas pela cor do outro. Se você dançou a música do momento porque ouviu no rádio de hora em hora. Se você não quis conhecer uma pessoa porque ela não tinha carro ou fugia dos padrões de beleza. Se você admira uma pessoa apenas por ela aparecer na televisão. Se você sonha com cargos para ganhar status. Sim, se você fez qualquer uma dessas coisas, você apenas existiu. Você não foi um indivíduo, você foi uma marionete. Um papagaio que se limitou a repetir os que os outros falaram. Um poço de futilidade interesseira, modismo e sem capacidade de afirmação. Então não se preocupe com 2012, porque mesmo que fosse o fim do mundo, pra você não faria diferença, você nunca viveu. Sua vida foi controlada desde sempre e por pura preguiça você preferiu não fazer nada. O fim de sua existência só será sentido pela sua família, que tem laços afetivos obrigatórios contigo. Os seus amigos iguais a você talvez sintam um pouco, mas logo te substituirão porque é assim que funciona, tudo pode ser reposto por pessoas assim. Você não fará falta pro mundo.
 Desejo que nesse ano, as pessoas que por ventura se sentiram atingidas por esse texto reflitam, porque sempre é tempo. Tente perguntar antes de engolir tudo que já vem mastigado. Tente pensar se realmente você gosta daquilo que diz que gosta. Tente refletir se realmente acredita no que diz que segue e se acredita, questione-se o porquê. Isso pode ajudar a você deixar de apenas existir e realmente descobrir o que vale a pena em se viver.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

RESGATE

Eu estava sozinho, praticamente esquecido por todos, jogado ás traças. Não tinha perspectiva, planos e nem esperava por mais nada. Quanto mais os dias me passavam, sentia o fim cada vez mais próximo.
E era assim que eu ia levando, empurrando uma existência sem muito sentido e sinceramente apenas esperando que algo a findasse. Machucava-me voluntariamente, sem culpas e pensava em autoflagelação, não física, mas psicológica.
Só que a vida é engraçada, ás vezes e prega peças que podem se tornar agradabilíssimas surpresas ou tormentos insuportáveis. Acontece que a minha cota de tormentos já estava esgotada e até mesmo superada a essa altura da vida, porém mesmo assim nunca esperei algo que confortasse.
Depois de ter passado por várias situações ruins, de ter me separado do que me importava por diversas vezes e ser adicto de substâncias insalubres, só aguardava realmente os derradeiros instantes de uma história comum. De repente a vida resolve brincar de autora e transforma uma história comum em um enredo digno de uma “soap-opera”, definindo novos rumos, planos e aspirações.
Pessoas aparecem como quem não quer nada, com seu jeito, idéias, humores e até defeitos, sem aviso prévio, se tornam peças imprescindíveis no desenrolar dessa continuidade.
E assim sendo ocorre um estranho fenômeno, a espera pelo fim se transforma em renascimento. A autoflagelação se transforma em atitude positiva. Um sorriso passa a salvar o seu dia quando nada mais importava. Um nome basta pra tranqüilizá-lo quando nem uma tonelada de calmantes o fazia dormir. Uma companhia por breves minutos valem mais que o resto da vida rodeado de pessoas.
Existem pessoas que aprecem para nos resgatar e após esse regate acontecer, é claro que ocorrerão outras tempestades, a diferença está que quando estamos resgatados, ao contrário de esperarmos o pior, nós temos certeza da calmaria que está por vir. 

sábado, 24 de setembro de 2011

ONDE TODOS SABEM MEU NOME

Sozinho com pensamentos, sem nada pra fazer
Conversando intimidades com a solidão
Apesar de tanto tempo, não quero esquecer
E nem deixar minhas lembranças se perderem em vão

Aprisionado em um mundo que não é o meu
Buscando compreender o que se passa a minha frente
Por mais que tente, não me lembro como aconteceu
Como tudo foi ficar tão diferente

Eu sinto falta de todos
Eu sinto falta de tudo
Sinto falta até mesmo de coisas banais
Eu sinto falta das nuvens
Eu sinto falta da chuva
Sinto falta da vida que ficou pra trás

Enquanto isso o escuro vem para ajudar
Vou remoendo memórias seja do que for
E vou fazendo de tudo pro tempo passar
Assim não sobra espaço para sentir dor

De repente é madrugada e estou acordado
Vou recordando bons momentos pra me consolar
Desejando que o futuro me leve ao meu passado
Só assim minhas feridas irão cicatrizar

Eu sinto falta do dia
Eu sinto falta da noite
Sinto falta do barulho enlouquecido
Sinto falta da lua
Sinto falta da rua
Sinto falta até do que já tinha esquecido

Mas existe um lugar
Onde sou capaz de sorrir
Que o tempo deixou
Meio longe daqui
Quando consigo estar lá
Minhas angústias somem
Existe um lugar
Onde todos sabem meu nome

sábado, 3 de setembro de 2011

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE LIXO DO RICK


O texto de hoje é pra você que escuta as rádios FM populares e vibra com suas bandas favoritas nos programas de auditório dominicais decadentes do nosso país. Olhe bem a sua volta e procure alguma referência pessoal, a mínima que seja nas canções desses artistas que você pensa gostar tanto. Aposto que não encontrou nenhuma não é mesmo?
 Porque nem mesmo a grande maioria desses “artistas” consegue isso. Infelizmente essas músicas que tocam em rádios ou programas de TV são apenas produtos de consumo para a grande massa. Não tem preocupação artística, são como produção em série de qualquer fábrica que existe por aí.
 Pois é, e o grande magnata dessa indústria no Brasil atende pelo nome de Rick Bonadio. Produtor musical, compositor e jurado de programa de calouros é um dos mais requisitados profissionais nesse segmento em terras brasileiras. Mas isso seria garantia de qualidade? O currículo de trabalhos de Rick mostra que não.
 Há anos Rick vem produzindo e investindo em discos de bandas que pouco ou nada acrescentam no cenário musical brasileiro, bandas que são fabricadas única e exclusivamente para sanar o filão de fãs adolescentes desesperadas por ídolos descartáveis que vestem roupas descoladas e tem talento musical extremamente limitado.
 Por exemplo, Rick é responsável por um grande número de bandas que se dizem “rock”, mas que nada mais são que boys-bands com uma incrível habilidade de envergonhar quem gosta de rock de verdade, como Restart, Hateen, Fresno, NX Zero, CPM22 e Strike. Rick também atacou o filão de improvável rock cristão com discos de qualidade duvidosa das bandas Resgate e Katsbarnea, cujo principal objetivo é engrossar com jovens a grande massa de dizimistas de suas congregações. Isso sem falar em aberrações como Rodolfo e ET, Calypso, Dominó, Dogão, Rouge, Br’oz, LS Jack, Rastaclone. Rick também participou do programa Country Star onde tivemos Nathália e Leovander com músicas que constrangeriam Johnny Cash e também do quadro Olha A Minha Banda onde a principal descoberta foi a fatídica banda Agnela.
 É claro que Rick também fez outros trabalhos, porém o único álbum que eu posso considerar audível do admirável produtor foi o acústico do Ira. Não sei se Sr. Rick Bonadio gosta mesmo dos discos que produz ou se realmente se submete a produzir mediocridades por que precisa se sustentar, também não tenho nada contra a sua pessoa, porque acho sinceramente que deve ser um cara de bem, mas os discos em que trabalhou ao longo da carreira fazem jus ao título do texto. Talvez um dia Rick olhe com a devida importância para bandas como Tomada, Cracker Blues, O Bando Do Velho Jack, Motorocker e várias outras que estão há muito tempo fazendo boa música no país e que por falta de apoio do alto clero da mídia nacional continuam restritas a que realmente vai atrás de bons sons. Espero sinceramente que o Sr. Rick Bonadio um dia feche sua fantástica fábrica de lixo e se torne o Willy Wonka dos verdadeiros talentos da música feita no Brasil.

domingo, 31 de julho de 2011

TRISTE JANEIRO

Meu mundo inteiro desabou
Quando você fechou a porta e disse vai
Tentei entender como tudo acabou
Sobre mim belas estrelas de um triste janeiro

Durante muito tempo eu chorei
Curando uma ferida que aos poucos cicatrizava
Durante muito tempo eu procurei
A paz de longa data que eu esperava

Por quanto tempo vou me torturar
Tentando entender
Meus dias têm se passado em vão
Preciso esquecer, tenho que esquecer

Hoje cedo eu acordei
E decidi não mais chorar
As lágrimas de um triste amor
Que eu sei, não irá mais voltar

Confesso que até pensei
Em tentar te encontrar
Mas a dor dentro do peito
Disse pra deixar pra lá

E quanto tempo eu ainda vou passar
Esperando por você
Para acalmar meu coração
Preciso te entender, tenho que entender.

domingo, 24 de julho de 2011

LIKE A KINDERGARTEN

Sinceramente não sei por onde começar o texto de hoje. São muitas lembranças, nuances, gestos, expressões, palavras canalizadas em um único ponto que me fazem perder um pouco da métrica de redigir minhas linhas.
 É como imagino que deva ser a sensação de ganhar sozinho na loteria, só pode ser isso que me leva a escrever esta noite. Nunca fui muito otimista, realista talvez. Vivi belos momentos, fases ruins. Perdi pessoas importantes, conheci outras que não deveria. Estive e deixei lugares que tive saudades. Senti paixões mesmo sem saber se despertei alguma. Escrevi palavras vazias e outras cheias de sentimentos.
 Não acredito em recompensas, destino, premonições ou qualquer coisa do tipo. Vou vivendo um dia de cada vez sem muitos planos, tentando tirar o melhor de cada um deles com a convicção de que preciso apenas acordar para continuar vivendo.
 Porém a esta altura onde nem de longe sonhava em ainda me surpreender com algo ou alguém, surge uma grata surpresa, daquelas que faz a gente se sentir como se tivesse recebido o universo todo de presente. Coisas que só imaginamos serem possíveis nos nossos filmes preferidos ou nas letras de nossas canções favoritas. Acontecimentos antes somente imaginados pelos nossos autores de cabeceira. De repente nos damos conta que está acontecendo conosco e dentro de nossas cabeças nos questionamos se merecemos tamanho regalo da vida.
 Horas que passam em segundos, sorrisos que se tornam mais belos que qualquer obra de arte, bobagens que soam como sonetos e olhares dizem mais que qualquer discurso. Os piores problemas se tornam insignificantes, preocupações não superam a vontade e até mesmo problemas salutares momentaneamente são sanados.
 Não sei como denominar essa sensação, não consigo chegar a um nome, pois a mistura de sentimentos bons é muito grande. Prazer, admiração, carinho, atração e até mesmo devoção fazem de tudo isso quase uma patologia que ao invés de fazer mal, te devolve a vida que havia se perdido. Uma doença que não te machuca e sim te acalenta quando você acha que jamais será abraçado de novo. Um vírus que não te suga, mas que te fortalece e te faz pensar que é invencível. Uma loucura que não te rouba os sentidos, mas te faz pensar que ainda pode se tornar o que sempre sonhou.
 Chega simples com uma brisa e logo se torna um tornado de belas lembranças de onde não se quer jamais sair. Um nome de apenas três letras capaz de aos meus ouvidos se compararem a uma perfeita sinfonia.
 Continuo com as minhas convicções, vivendo um dia de cada vez e não precisando de nada além das minhas forças, mas não posso negar que daqui pra frente mesmo que não seja uma necessidade, é uma vontade quase incontrolável de ser brindado com essa presença. Uma presença que pode permanecer calada e imóvel, mas que pelo simples fato de estar lá já me faz acreditar que vale apena continuar. Até porque foi assim, sem muito alarde, que esse mesmo pássaro da cor da noite me resgatou quando eu estava prestes a desistir.

terça-feira, 12 de julho de 2011

13 DE JULHO

 Poucos sabem como começou e na realidade não se sabe ao certo. Anos 40, 50 ou 60. Tanto faz. Isso não importa agora.  O que importa que ainda continua muito vivo apesar de ter sua morte anunciada várias e várias vezes ao longo dos séculos.
 Vários sentimentos vêm à tona quando temos contato com ele. Rebeldia, amor, paixão, revolta, tristeza, felicidade e mais um turbilhão de emoções são provocados a todo o momento quando ele está presente. Ele tem o dom de tocar a alma e transformar para sempre a vida de quem o conhece. Poucas vezes foi traído e quando isso aconteceu, foi por pessoas que não mereciam sequer terem tomado conhecimento de sua existência.
 Ele já foi o maioral, hoje em dia é démodé. Já foi o terror das famílias de bem e continua o sendo. Ele já foi responsável por várias histórias de amor, atualmente participa só das mais interessantes.
 E o porquê dele ser assim? Tão apaixonante, intenso, capaz de proporcionar uma infinita gama de sensações aos que tem a sorte de lhe serem íntimos? Só experimentando para saber. É tão inexplicável quanto prazeroso, afinal suas múltiplas facetas encantam logo de cara e te dão a convicção que durará eternamente.
 Nenhum outro jamais fará frente a ele, nem de perto conseguirá repetir seus feitos. Ele é mais velho, mais experiente, mais sedutor e mais verdadeiro que qualquer outro. Ele forma opiniões, dita tendência, faz os que o seguem acreditarem que podem ser o que quiserem. Ele pode ser simples, complexo, rude, apaixonado, agressivo ou suave. É isso que o torna único e faz seus fiéis amantes serem o que ele quiser até o fim da vida.
 Isso é o Rock N’ Roll, o som que muitos desafortunados pensam estar ultrapassado. Nós somos rockers e não estamos nem um pouco preocupados com isso, por que sabemos que será infinito independente de qualquer coisa. Somos capazes de transcender o mais longínquo limite para continuarmos com ele, sempre com a certeza de que enquanto existir um garoto tentando dedilhar uma guitarra e sonhando em ser John, Paul, Keith, Clapton, Iggy, Randy ou qualquer outro, tudo continuará bem. Feliz 13 de julho a todos nós que somos movidos a liberdade, embalados a riffs e entorpecidos por Rock.

terça-feira, 5 de julho de 2011

SAUDADE

Saudade é um sentimento
Bom e ruim de sentir
Que às vezes é um tormento
E em outras me faz sorrir
E que neste exato momento
É o que me faz existir

Saudade me traz lembranças
Que deixam os olhos marejados
Que amenizam as distâncias
E me devolvem ao passado
Que confortam minha ânsia
De lembrar sem ser lembrado

Saudade me faz odiar
O que vivo no presente
E me faz querer gritar
P’ros meus amores recentes
Que desisti de encontrar
Os risos que andam ausentes

Saudade me faz pensar
No que deixei pela vida
Em noites pra recordar
Com alguns goles de bebida
Em pessoas de um lugar
Que deixei na despedida

Saudade me faz querer
E até mesmo acreditar
Que eu possa renascer
E conseguir retornar
Às coisas do meu viver
Que eu tive que deixar

Saudade pode ferir
E trazer felicidade
Saudade pode mentir
Mesmo dizendo a verdade
Não tem como definir
Saudade é apenas saudade

segunda-feira, 27 de junho de 2011

PESSOAS E ESCOLHAS

 A imensidão de tipos diferentes de pessoas que precisamos conviver ao longo da vida é uma conta praticamente infinita. Infelizmente nem todas são do jeito que gostaríamos que fossem. E isso começa cedo, afinal não podemos escolher nossos pais ou irmãos e muito menos interferir na sua forma de pensar.
 Depois vem a escola onde temos que conviver com colegas de todas as espécies, famílias e criações diferentes onde muitas vezes temos que esforçar-nos muito para uma convivência no mínimo pacífica. E a vida continua seguindo, vem a faculdade, o trabalho, você vai morar sozinho e cada dia que passa se vê cercado de gente que no fundo você desejaria jamais ter conhecido em grande parte das vezes. Colegas e vizinhos que gostam de música brega, filmes óbvios, literatura barata e que não entendem 90 por cento do que você diz ou pensa.
Mais tarde aparecem tipos que querem que você se converta, use as roupas da moda, falam que você tem que parar de fumar, condenam seus porres, pedem para você não ser tão sincero e que já não tem mais idade para vídeo-game. Fora que chega uma hora que sua própria família te cobra um bom emprego, casa própria, casamento e filhos, te comparando a um primo mais velho ou até mesmo ao filho de alguma vizinha.
 Isso sempre acontece com todos, independente de gostos ou opiniões. Dia após dia somos obrigados a conviver e em muitas ocasiões a engolir pessoas que não nos acrescentam em nada, pior, ficam cobrando o tempo todo comportamentos que não condizem com nossa natureza. A pergunta é: por que tolerar? Pra que se submeter a isso? Tem alguma razão?
 Tem sim. Esses indivíduos vazios servem pra alguma coisa mais, além de nos chatear. Servem de parâmetro para que possamos dar o devido valor às pessoas que infelizmente raras vezes cruzam nossa existência. Pessoas que compartilham de gostos, idéias e pensamentos semelhantes aos nossos. Pessoas que fazem valer a pena acordar todo dia. Pessoas que fazem parar o tempo pelo simples fato de estar ao nosso lado, mesmo que fiquem caladas.
 São esses raros momentos que fazem a vida ter um motivo. As pessoas que escolhemos se tornam mais especiais ainda, quando comparadas as que nos são impostas e se nós fizermos uma conta, existe uma para mil numa proporção aproximada. Então se você pensar nisso, passe a valorizar ainda mais as pessoas que gosta de ter por perto, seja qual for sua relação com elas, por que simplesmente elas são seu oásis de bons momentos encravados num deserto de superficialidade. Elas são sua gota de lealdade num oceano de máscaras. Elas também podem ser a estrela cadente que irá atender seus pedidos num universo de falsas promessas.

terça-feira, 21 de junho de 2011

LEMBRANDO ANGÚSTIA E SOLIDÃO

A lua estava tão bela
Quando ele chorou
Por um minuto se descontrolou
E ao olhar a janela
Ele se lembrou
Dos velhos tempos ao lado do seu amor.

Lembrando, palavras e juras
Lembrando, da doce ternura
Lembrando aquela que o enfeitiçou.

Ela não o quer
E lhe abandonou
No ar estão seus pés, perdido no escuro
Ele quer entender
Por que tudo acabou
O que foi que ele fez que mudou seu futuro.

Solidão, só um pensamento
Solidão, que fere por dentro
Solidão, que o impede de sorrir.

Não consegue voltar
Das sombras do passado
Ela não vai voltar se ele ficar parado
Mas não vai adiantar
Se ele feito tolo
For a procurar pra sofrer de novo.

Angústia, sem o que fazer
Angústia, pressa de morrer
Angústia, talvez seja melhor o fim.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

ALIMENTO = AGONIA

Era simplesmente por prazer que eu fazia aquilo tudo e farei de novo se me deixarem. Foi pelo meu instinto, minha vontade e minha necessidade que eu fiz, não foi nada demais e também não é responsabilidade de mais ninguém, só minha.
 Sempre fui fascinado pelo desespero alheio. Olhos parados cheios de medo, angústia e terror são extremamente prazerosos para mim. Gritos, urros e sensação de impotência me dão aquela doce idéia de ser o dono da situação, de ser o deus daquele ser ao menos por àquelas horas e isso não tem preço.
 Lembro-me da primeira vez que tive coragem de saciar o meu vício. Deveria ter uns 16 anos e realmente detestava aquela filha de uma vizinha. Estudei sua rotina por uma semana e descobri que ao voltar da escola ela atalhava por um bosque que havia no meu bairro. Era inverno, eu estava de jaqueta e foi fácil esconder uma faca de cozinha com uma corda que peguei na garagem. Esperei por mais ou menos uma hora e quando ela saiu, a segui em média distância. Quando ele entrou no bosque eu corri, ela me viu e ficou sem entender. Comecei com um soco, ela caiu, chutei sua face e ela ficou desacordada. Amarrei-a bem forte com a corda, amordacei-a e me certifiquei que não havia ninguém por perto.
 Estava fácil, mas precisava acordá-la, senão não haveria por que. Afinal o que me saciava era o olhar desesperado da vítima. Bati com força em seu rosto e ela despertou. Mostrei a faca, ela tentou gritar me causando uma euforia inexplicável. Comecei pelo pescoço, a faca corria, o sangue escorria e a sensação era surpreendente. Ela se debatia me encarando como se perguntasse a razão, o que ela teria feito para terminar daquele jeito. Não havia motivo, apenas minha vontade, minha necessidade de agonia alheia e só. Infelizmente ela rapidamente sucumbiu aos ferimentos, o que me deixou claro que precisava praticar para tirar o máximo de êxtase daquele ritual particular.
 Pelo fato de nunca terem desconfiado, achei que deveria seguir satisfazendo meu vício e vieram mais vítimas. Sempre demorando mais e mais, cada vez com mais dor, conseqüentemente aumentando meu deleite a cada nova empreitada.
 Ficou perigoso, as pessoas estavam com medo, fazendo perguntas. Tive que ir pra outra cidade, arrumei um emprego e não levantava suspeitas. Já tinha matado umas 10 pessoas de todos os tipos, mas sempre com uma faca. Aprendi cortes que as faziam sangrarem por muito tempo até morrerem para que eu pudesse me alimentar daquela incrível sensação de prazer.
 Eu não escondia os corpos, não temia que me descobrissem. Não me importava com nada além daqueles momentos de ser o algoz e ao mesmo tempo a única esperança daqueles pobres infelizes. Eu e minha faca, só isso me dava razão para existir. Só dessa maneira conseguia me sentir útil, privando o resto do mundo de pessoas sem alma, sem conteúdo. Eu só matava pessoas que eu julgava que não fariam falta a ninguém e isso me satisfazia mais ainda.
 Hoje em dia, me trancaram sozinho. Nessa cela que habito há vários anos, a vontade continua viva. Se um dia eu sair, vou voltar a alimentar-me do que realmente me importa: o desespero da agonia alheia. Não sou louco, jamais faria nada de mal a alguém que me importasse, porém, todos têm seus vícios e o meu é esse. Mato por mim, por mais ninguém, não é nada pessoal e isso é verdade. Minhas vítimas me realizam e acho que pelo menos na hora da morte puderam fazer alguém feliz, o homem de faca na mão, extasiado com seus últimos momentos e entorpecido com o cheiro do seu sangue. 

segunda-feira, 6 de junho de 2011

METADES

O que de verdade te chama atenção? Você se já deve ter se perguntado isso umas mil vezes ao longo da vida, mas será que já conseguiu chegar a alguma conclusão? Provavelmente não, mas isso é mais normal do que pensamos. Afinal, as prioridades, as preferências e até mesmo as coisas que despertam admiração estão em constante mutação ao longo do tempo.
 A busca por referências começa cedo, sempre temos a necessidade de sermos aceitos de alguma forma por alguém, por algum grupo e na maioria das vezes esquecemos-nos de procurar a nossa própria aprovação que é de certa forma a mais difícil de conseguir.
 Erroneamente, temos o costume de nos preocuparmos primeiro com a opinião alheia, antes mesmo de nos perguntarmos o que achamos sobre nós mesmos, pois a sociedade é historicamente a principal juíza dos das ditas pessoas de bem.
 Se recordarmos a época de colégio, quem nunca quis fazer parte do grupo de todos aqueles que eram convidados para as festinhas de sábado à noite? Quem nunca se preocupou em se vestir de maneira que os mais bonitos e descolados notassem a nossa humilde presença? Quem nunca sonhou em ser “o cara” do colégio? Atire a primeira pedra quem nunca teve essas aspirações.
 Mas o melhor da vida é que crescemos, envelhecemos e olhando pra trás percebemos o quanto era superficial aquela coisa toda. Éramos tolos, imaturos e influenciáveis, porém a oportunidade de nos libertar aparece para todos e quem tem a sorte de percebê-la e consequentemente aproveitá-la, torna-se naturalmente um ser humano único, que passa a se importar consigo mesmo e enfim torna-se verdadeiramente interessante para as pessoas que realmente importam, que consigam notar a pura essência de outra alma.
 E essas criaturas quando aprecem em nossas vidas, são costumeiramente chamadas de metades. Reza a lenda que todos têm uma, até mesmo mais de uma. Eu já devo ter cruzado com algumas minhas pelos bares da minha conturbada passagem pela existência e espero que um dia alguma, não apenas se encaixe perfeitamente, mas permaneça encaixada, como uma boa metade deve fazer. Enquanto isso eu continuo tentando achar uma peça, sem pressa, porque metades acabam sempre se encontrando, mas ás vezes o encaixe demora um tempo maior, mas nada que faça valer menos à pena.
 Se você está em busca da sua, somente quando se livrar das algemas, dos dogmas e das imposições conseguirá encontrá-la, afinal sem verdade de gestos, jamais ninguém saberá seu verdadeiro encaixe. 

segunda-feira, 30 de maio de 2011

EU SOU AQUELE


Eu sou aquele de outros tempos

De gostos bem diferentes
De eternos bons momentos
Em que sorrisos simplesmente
Inspiravam sentimentos
Sinceros de suas vertentes.

Eu sou aquele que cresceu sem despertar
Grandes notícias ou esperanças
Mas que teimava em esperar
Mesmo em tempos de criança
Algo pra poder contemplar
Cessando com as desconfianças.

Eu sou aquele que nunca se contentou
Com as coisas que me diziam
O que sempre questionou
Os porquês que existiam
E que muitas vezes chorou
Enquanto todos sorriam.

Eu sou aquele que existe
Num mundo que é só meu
Parecendo ás vezes triste
Por algo que aconteceu
Que há muito tempo insiste
Em viver o que aprendeu.

Eu sou aquele sem vida
Que se vicia em canções
Que a cada despedida
Guarda vários corações
Pra que sirvam de guarida
A tantas recordações.

Eu sou aquele de verdade
Que gosta sem esperar nada
Que usa a sinceridade
Pra guiar sua jornada
E só tem intimidade
Com palavras rabiscadas.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

DOIS OLHOS

Em mais um dia banal
Sem nada de diferente
Várias faces, tudo igual
Mas em meio a tanta gente
Tinha um olhar memorial
De beleza surpreendente.


Ao avistar esse olhar
De olhos verdes brilhantes
Passei a me perguntar
Como pude não ver antes
Essa cor que lembra o mar
E inspira sonhos distantes.


 São dois olhos que me fazem
Esquecer os meus problemas
Dois olhos que são capazes
De resolver meus dilemas
Inspirando versos, frases
Belas palavras e poemas.


Dois olhos que são presentes
Dados pela natureza
Que ás vezes são inocentes
E até cheios de pureza
Que mesmo estando ausentes
Brindam-me com sua beleza.


Se um dia eu puder ter
A beleza desse olhar
Para quando eu quiser ver
E com ele me encantar
Só o que posso prometer
É jamais o fazer chorar.


Dois olhos que são mistérios
Que eu queria descobrir
Que mesmo quando estão sérios
Desafiam-me a sorrir
Eu conquistaria impérios
Pra não deixá-los partir.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

TRÊS VIDAS

Um texto com esse título poderia falar sobre tudo menos sobre relacionamentos, certo?
Errado! Esse título tem tudo a ver com relações, sobretudo as afetivas. Porque amizades, namoros, noivados e até mesmo casamentos tem que ser baseados nesse conceito para que façam bem aos envolvidos.
 Vários relacionamentos sucumbem pelo fato de alguns desejarem viver a vida dos seus parceiros, de outros tantos desejarem que o parceiro viva a sua vida e de muitos acharem que só existe vida quando estão juntos dos seus escolhidos. Esse tipo de atitude faz com que qualquer casal caia na desconfiança quando um resolve que precisa respirar de vez em quando e na esmagadora maioria das vezes, acaba com aquilo que ambos pensavam que perduraria por todo o sempre.
 Existem tipos que para agradar a quem desejam ter por perto, simplesmente ignoram todas as suas convicções, preferindo moldar-se de acordo com o modelo ideal imaginado pelo outro. Eficaz pode até ser, mas será que nesse parceiro dos sonhos estaria incluso a falta de personalidade? O quanto é gratificante ficar com alguém que não nos conhece de verdade? Mais um exemplo de relação que não será duradoura e o que é pior, enquanto durar será uma tortura para ambas as partes. Para um, por ter que esconder-se atrás de um personagem e para outro por achar que gosta de um.
 Há também os casos de gente que acha que adquiriu título de propriedade de seu eleito. Simplesmente eles acham que a felicidade se resume em fazer com que o outro apague tudo que viveu antes de conhecê-los. Amigos, lembranças, paixões e tudo o mais, automaticamente deixam de existir para que a relação possa dar certo. Não dá certo, pois quem tem o mínimo de amor próprio jamais se submeteria a tamanha ignorância e deixaria essa cilada, afinal quem conquista de verdade não precisa colocar amarras.
 Outro erro bastante comum é o de transmitir a outra pessoa uma responsabilidade que é só nossa: fazermos-nos felizes. As pessoas têm que aprender de uma vez por todas que elas são as únicas responsáveis pela sua própria felicidade. Ninguém tem obrigação de nos tornar pessoas realizadas. Chega a ser até cruel jogar esse fardo nas costas de quem quer que seja, pois o fato de querermos estar com alguém não a torna responsável pelos nossos sucessos ou fracassos. Temos que pensar em nós até mesmo quando queremos agradar a quem gostamos. Temos que pensar em quanto nos fará bem arrancar um sorriso de alguém que nos é querido quando fizermos algo que realmente importe a essa pessoa.
 Quanto ao título do texto? Três vidas é o que precisamos. A nossa, a de quem escolhemos e a que viveremos ao lado dessa pessoa. Porque se você não tiver a sua vida, não terá nada a ensinar. Porque se sua metade também não a tiver, você nada aprenderá. É isso que vale pena nas relações, gostos iguais e diferentes. Opiniões ora compartilhadas, ora distintas. Momentos juntos intercalando ás vezes com cada um na sua. Se vai durar pra sempre? Não sei, mas enquanto durar será muito mais prazeroso para todos.

terça-feira, 17 de maio de 2011

MELHOR NÃO TÊ-LOS?

 Grande parte das pessoas um dia já amaldiçoou o fato deles existirem. Independente de serem bons ou maus, de trazerem alegrias ou as mais aterradoras frustrações e até mesmo de guiarem seus destinos num impulso incontrolável.
 A grande verdade é que eles regem o que chamamos de vida e sem eles seríamos literalmente vegetais ao invés de seres humanos. Os sentimentos são os grandes maestros da orquestra particular de cada um de nós. Amáveis, perversos, arrebatadores, leves, intensos, maléficos ou edificantes eles são os responsáveis pelas nossas ações em relação a tudo, principalmente aos outros.
 Existem aqueles que preferem negá-los, outros que os assumem e mesmo tantos que simplesmente tentam ignorá-los, mas é em vão. Isso é impossível.
 Se você ignora uma a existência de alguém, sente desprezo. Se contar os minutos para pelo menos se deparar com um sorriso, sente amor. Se não vê a hora de grudar seu corpo em outro, sente desejo. Se quiser ser brindado com a notícia da morte de alguém, sente ódio.
 Eu sinto, tu sentes, ele sente... Todos nós sentimos algo em relação a qualquer coisa ou qualquer pessoa que travamos o mínimo de contato. Então tenhamos consciência que por mais sombrios que sejam os nossos, eles ainda assim são sentimentos. Fazem-nos sorrir, chorar, matar, morrer e muito mais. O mais importante é que eles são essenciais para fazer-nos viver e isso já uma grande façanha.
 Melhor não tê-los? Nunca. Sem eles simplesmente inexistimos e não seríamos capazes de experimentarmos. Existem pessoas que não os possuem? Sim, e podem ser encontradas aos milhares, em baixo de sete palmos em qualquer cemitério.